Foto: Freepik
Por Rafael Duarte, CEO e fundador do Grupo RD Medicine
Elas são maioria nas salas de aula. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, 58% das matrículas em cursos de medicina no país são ocupadas por mulheres. O dado representa uma transformação importante para uma profissão historicamente masculina. Mas esse avanço perde força ao longo da trajetória profissional. A presença feminina diminui de forma consistente nos espaços de decisão. Relatórios globais, como os da Women in Global Health, indicam que apenas cerca de 25% dos cargos de liderança no setor de saúde são ocupados por mulheres. Quando se observa o topo institucional, o número é ainda menor. Um levantamento do IBGC aponta que só 16% das presidências de conselhos e sociedades médicas têm liderança feminina.
O problema, portanto, não está na entrada. Nas últimas duas décadas, as mulheres conquistaram espaço no acesso à formação médica, superando numericamente os homens. A ruptura ocorre depois. Existe um desalinhamento evidente entre quem se forma e quem lidera, e essa diferença não pode ser explicada por escolhas individuais isoladas. Trata-se de um padrão estrutural.
A distorção se torna ainda mais visível quando se analisam especialidades e níveis hierárquicos. Áreas cirúrgicas continuam sendo majoritariamente masculinas, e a presença feminina diminui conforme a elevação na estrutura de poder, seja em diretorias hospitalares, na liderança de sociedades médicas, na pesquisa ou na academia. Mesmo em ambientes onde as mulheres são maioria no corpo clínico, elas permanecem sub-representadas nos espaços que definem diretrizes, prioridades e modelos de atuação.
Parte desse cenário está ligada a fatores já bem documentados. A sobrecarga da dupla jornada, que ainda recai de forma desigual sobre mulheres, limita a disponibilidade para plantões extensos, especializações prolongadas e participação em congressos e redes acadêmicas. A ausência de estruturas formais de mentoria reduz o acesso a oportunidades estratégicas e a indicações para cargos de liderança. Além disso, vieses implícitos seguem influenciando processos de seleção e promoção, muitas vezes de forma silenciosa, mas com impacto concreto.
Ignorar esse contexto tem um custo que vai além da desigualdade. A baixa representatividade feminina afeta diretamente a qualidade da medicina. Há evidências consistentes de que equipes mais diversas tomam decisões mais completas, apresentam menor incidência de erros diagnósticos e estabelecem uma comunicação mais eficaz com pacientes. Ambientes com liderança plural tendem a ser mais abertos à inovação, ao questionamento e à revisão de práticas, fatores essenciais para a segurança assistencial.
Foto: Grupo RD Medicine Rafael Duarte é CEO e fundador do Grupo RD Medicine, referência global na preparação de médicos para as provas americanas de validação profissional (USMLE).
Quando mais da metade da força de trabalho médica não encontra as mesmas condições de progressão, o sistema perde eficiência. Não se trata apenas de uma questão de equidade, mas de desempenho. O talento existe, a formação também. O que falta, em muitos casos, são condições que permitam que esse potencial se converta em liderança.
Ampliar a presença feminina nos espaços de decisão passa, necessariamente, pelo acesso mais equitativo ao desenvolvimento profissional. Isso envolve educação continuada alinhada às diferentes fases da carreira, redes de mentoria estruturadas e ambientes institucionais que reconheçam os obstáculos sem que sejam naturalizados. Onde essas condições existem, a progressão tende a se equilibrar.
A presença de mulheres em posições de liderança não transforma apenas indicadores de representatividade. Ela altera a cultura das instituições, amplia perspectivas clínicas e fortalece ambientes para tomada de decisão. Mais do que corrigir uma distorção, trata-se de evoluir o próprio modelo de prática médica.
A pergunta que permanece não é por que as mulheres ainda não ocupam esses espaços em proporção equivalente, mas o que ainda impede que isso aconteça de forma natural. A resposta, embora complexa, começa pelo reconhecimento de que o problema não está na formação, mas no caminho que vem depois dela.
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Postado por Maria Teresa, no dia 15/06/2026 - 11:44