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Rogéria Ramos


A natureza não participa das reuniões



Recentemente, durante uma visita técnica relacionada às discussões do CODEMA sobre intervenções no Rio Bananeiras, estive em uma área próxima ao Parque de Exposições onde o tema passou a ser objeto de análise e debate. Ao caminhar pelo local, percebi que talvez a questão mais importante não estivesse apenas na intervenção em si. Estava na forma como nós, enquanto sociedade, passamos a enxergar os nossos rios. Ou, talvez mais preocupante, na forma como deixamos de enxergá-los.

Existe uma tendência natural de associar o valor de um rio apenas à água que corre entre suas margens. Mas um rio é muito mais do que isso. Ele participa da drenagem natural da cidade, contribui para a recarga dos aquíferos, sustenta ecossistemas, regula fluxos de água, influencia a estabilidade do solo e atua silenciosamente para reduzir impactos que muitas vezes só percebemos quando algo deixa de funcionar.

Os engenheiros chamam isso de infraestrutura.

A natureza já fazia esse trabalho muito antes de existirem engenheiros.

Talvez por isso uma das maiores ilusões da vida urbana seja acreditar que os processos naturais podem ser substituídos sem consequências. A história das cidades brasileiras está repleta de exemplos que merecem atenção: córregos transformados em canais, nascentes aterradas, áreas de inundação ocupadas e margens descaracterizadas. Em muitos casos, os benefícios pareciam imediatos. Os custos apareceram anos depois, na forma de enchentes, assoreamento, processos erosivos, perda da qualidade da água e obras corretivas financiadas com recursos públicos.

Curiosamente, a natureza raramente reage no mesmo dia. Ela costuma conceder um período de aparente normalidade. Por algum tempo, tudo parece sob controle, até que aquilo que parecia apenas uma intervenção localizada revela impactos que ninguém considerou adequadamente.

Talvez por isso o verdadeiro debate ambiental não devesse começar pela pergunta sobre o que é permitido fazer. Deveria começar pela pergunta sobre o que é prudente fazer. São coisas diferentes. Nem toda decisão tecnicamente possível é necessariamente uma decisão inteligente.

É justamente nesse ponto que a responsabilidade pública se torna mais importante. Proteger rios, nascentes e áreas ambientalmente sensíveis não é um capricho, nem uma pauta restrita a ambientalistas, tampouco um obstáculo ao desenvolvimento. É uma questão de planejamento, de segurança, de responsabilidade com os recursos públicos e de respeito pelas próximas gerações.

Ao longo das reuniões do CODEMA tenho percebido algo que merece reflexão. Discutimos empreendimentos, licenciamentos, compensações, condicionantes e intervenções que terão efeitos por décadas. Muitas dessas decisões passam despercebidas pela maior parte da população, mas seus efeitos serão sentidos por todos.

É justamente por isso que o cuidado ambiental exige mais do que o cumprimento formal de normas. Exige compromisso, visão de longo prazo e a humildade de reconhecer que existem sistemas naturais extremamente complexos e que nem sempre compreendemos completamente todas as consequências de alterá-los.

O Rio Bananeiras talvez nos ofereça uma reflexão importante. Não apenas sobre um curso d'água específico, mas sobre a cidade que estamos construindo.

Porque a natureza não participa das reuniões, mas continua presente em todas as decisões. 

E produz consequências para cada escolha que fazemos.



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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 29/06/2026

Rogéria Ramos


Rogéria Ramos, presidente da Associação dos Moradores Unidos do Bairro Santo Agostinho E-mail rogeriaramosalves@yahoo.com.br Instagram @rogeriaramosss



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